Pode não ser depressão… pode ser autoconhecimento.

Professor Rafael Tinoco, psicanalista e filósofo

Nossa geração alcançou um avanço tecnológico, fruto dos últimos 100 anos de desenvolvimento, impossível de comparar a qualquer outra época da nossa história. Este progresso trouxe significativa mudança na realidade e na própria concepção do autoconhecimento e função da existência individual. Tanto para o bem, quanto para o mal, o homem criou e destruiu muitos ídolos, chamou à existência o inimaginável, caminhou em estradas que nunca antes havia pisado. Desvendou enigmas do Cosmo e de sua própria consciência. Se dedicou a ciência e ao pensamento, tanto quanto à guerra e ao ódio. Mostrou o melhor e o pior de si.

É inegável que mudamos. O que se questiona é o preço dessa nova realidade social e individual. Se por um lado criamos códigos de leis e formulamos teorias políticas com o objetivo de evitar conflitos, também é verdade que a nossa vida se tornou muito vigiada. A exigência que se aplica sobre jovens e adultos tem critérios objetivos e subjetivos. Sob determinado aspecto, toda essa vigilância externa se tornou também um tipo de autocastração e definiu o ideal massificado daquilo que devemos ou não considerar ‘felicidade’, ‘realização’, ‘sucesso’, ‘conquistas pessoais’.

Ser considerado ‘Bem sucedido’ se tornou o novo critério evolutivo para a seleção natural da contemporaneidade. A sociedade que construímos se tornou tão, ou até mais selvagem, do que aquela em que vivem os animais ditos irracionais. Com nossos Smartfones, em redes sociais como esta, destilamos toda sorte de sentimentos, sejam construtivos e benéficos ou altamente destrutivos e profundamente detestáveis. Evoluímos tanto dentro deste mundo de tecnologia que nos cerca, que talvez tenhamos deixado de lado aquilo que nos tornava únicos: uma perspectiva individual da nossa própria existência.

Qualquer pessoa que rejeite este modelo de super exposição de sua imagem, ou de obrigatoriedade de sucesso, e tenha outros objetivos fora do alcance da sociedade, coisas mais voltadas a realização verdadeiramente pessoal, ou de pequenos prazeres e satisfações sem a necessidade de ser amplamente divulgado, logo se torna postulante a ser considerado alguém que sofre:

– Sofre do que? Ninguém sabe exatamente, mas ela sofre…

Se você, ou eu, em algum momento da vida se questionar se está ou não feliz, seremos considerados ‘candidatos a sofrer de depressão’. O fato de refletir, considerar, ou mesmo questionar a razão da sua própria existência, já pode ser considerado por muitos, um sintoma de depressão.

Diante da enorme relação entre o desenvolvimento da nossa sociedade e do pequeno avanço do autoconhecimento, podemos observar que o campo aberto em matéria de saber, atualmente, se restringe ao que ainda não sabemos sobre nós mesmos. Portanto, a reflexão sobre a razão da nossa existência, deveria ser considerada um campo de saber e desenvolvimento e não um sintoma de adoecimento. Podemos, tanto sofrer e mesmo assim não estarmos doentes, como podemos ser aceitos e felizes e mesmo assim não estarmos nem um pouco saudáveis.

Pare e pense: Você é realmente feliz ou está apenas tentando viver a vida de ‘sucesso’ vendida pelo mercador de sonhos recondicionados?

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